Julimar foi um dos caras mais felizes que eu já conheci.
Gostava de velhinhos, crianças e animais.
Dava bom dia para as pessoas na rua, jamais sentava no assento reservado
do metro e nunca saia do elevador antes que todos já estivessem descido.
Era moço de sorriso fácil, de muitos amigos, gente da gente, sabe?
Queria ser doutor...
E por tudo isso, não é de se estranhar o tamanho pavor da Chica quando o
encontrou numa manhã chorando copiosamente na beira da cama. Um susto que só
ficou maior quando, entre soluços, ele também começou a gargalhar, puxar os
cabelos e babar.
A perturbação estampada nas emoções desenfreadas de Julimar era tão
visível que chegava quase ao ponto de se tornar palpável.
Mas por quê? Perguntava Chica. Quem,
nesse mundo todo de meu Deus poderia ter feito um mal tão grande a esse moço?
Mas Julimar não falava. Apenas ria, sorria e babava feito um louco. E essa era
a frase exata: feito um louco.
Chica, em pânico, não pensou duas vezes antes de ligar para o sanatório.
Pegou logo o primeiro que achou no google.
E foi de cortar o coração ver o pobre do Julimar partindo, amarradinho
daquele jeito, e ainda assim rindo e chorando feito criança.
Ontem fez exatos 3 meses que ele se foi. E a Chica, ainda se sentindo
meio culpada, finalmente criou coragem de ir até lá visitá-lo.
Voltou até mais animada. “Ele está
cantando” dizia ela para uma vizinha amiga. E ele realmente estava. Cantava
Atirei o pau no gato com uma emoção
jamais vista em Bambalalão nenhum. E ainda fazia questão de enfatizar o meaaaaau.
E tudo, dizia o psiquiatra, por causa daquele maldito gato do vizinho
que subiu no seu telhado quando Julimar estava quase conseguindo transar com a
loira descomunal que ele vinha pelejando há meses para levar para cama.
Ele já tinha passado da fase de pegar na mão, dos amassos no sofá e,
justamente naquele dia, estavam sozinhos e pelados no quarto. O Julimar em
ponto de bala, de cara pro gol, a Loira em posição de “vem cá meu nego”, até
que o gato soltou um tenebroso meaaaau daqueles que só um bichano no cio pode fazer – o mesmo meaaaauuu
que o aterrorizava todas as noites.
O resultado foi coisa triste de se ver, viu? Julimar broxou, a loira se
assustou e, não bastasse tudo isso, ainda se mandou espalhando no bairro todo
que o coitado do Julimar era Jujoxa - Juju,
o broxa.
Éh... dizia o
psiquiatra.... Depois disso a vida do
Julimar miou de vez. O gato subiu no telhado, sabe?
E o próprio Julimar não podia nem cogitar a ideia de uma alta para
voltar para a casa. Sabe como é, né...
Gato escaldado tem medo de água fria... –
ele falava aos colegas do sanatório. E gargalhava compulsivamente.
Já a Narcisa, amiga da Chica, ainda fazia questão de terminar a história
que repassava para o resto da vizinhança dramatizando o máximo que podia: ai que badalo, ai que loucura – dizia
ela...