segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Você me conhece? De verdade?


(Relutei muito em escrever esse texto, sobretudo por causa das pessoas que ele pode afetar, mas senti que precisava fazer isso)...
Aconteceu quando eu tinha mais ou menos uns 9-10 anos... Naquela época eu estudava em um colégio de freiras e ia para a escola de ônibus escolar. Todos os dias, as 12h, descia para esperar o ônibus junto com mais 2 coleguinhas da escola. Um que morava no mesmo condomínio que eu e se chamava Duani (ou algo assim) e este outro do prédio da frente, cujo nome meu cérebro bloqueou por completo. Os dois eram um ano mais velhos que eu... E todos os dias eram iguais. Enquanto o ônibus não chegava, a gente batia figurinhas, dava risadas com tonterías, éramos amigos e crianças. Até esse dia em que as coisas mudaram...
Era um dia de chuva e frio e o Duani, por algum motivo, não desceu. Estava atrasado... Então, ficamos ali na porta só eu e esse outro menino do prédio da frente. Como chovia e o prédio dele é um desses pequenos, sem porteiros e a entrada mais perto da rua, o menino sugeriu que a gente entrasse no Hall do prédio dele. Ali estaríamos protegidos da chuva, podíamos claramente ver o ônibus chegar e, nos esconderíamos do Duani que, ao descer, ia tomar susto pensando que havia perdido o ônibus... É... parecia uma boa ideia. E que mal tinha nela, não é mesmo? Eu conhecia o menino desde sempre... Da mesma escola, da mesma rua, do mesmo bus. Conhecia seus pais e sua irmã.
Só que não...
Quando entramos ali, o menino me atacou. Literalmente. Ele me jogou no chão e tentava a toda força arrancar a minha calça, enfiar os dedos em mim, arrancar a blusa. Eu tentava fugir ainda assustada e sem entender o que estava acontecendo. Queria gritar, mas o choque era tanto, que a voz não saia. Por que ele estava fazendo aquilo? Ele me machucou... e foi muito mais que fisicamente...
Quando consegui finalmente me desvencilhar desse menino, cansada, magoada, com a roupa abarrotada e a trança desgrenhada, vislumbrei que o Duani finalmente saia para a rua. Foi tipo um anjo. Saí correndo dali e gritando por ele. Mas claro... ele também se assustou e não entendeu nada. E eu não tive coragem de dizer nada. Me calei. E então o ônibus finalmente chegou e entramos calados. Me sentei ao fundo, isolada... Mas a história não acabou por aí! Não bastasse o ataque asqueroso, o menino entrou triunfante no ônibus contando a todos os outros, os mais velhos inclusive, que havia me “pegado”, etc etc... De repente vi todos apontando para a minha cara, rindo, xingando... Senti vontade de sumir, mas não podia. Estava em choque. Tive raiva de mim, nojo, culpa, vergonha... tudo ao mesmo tempo...Tive medo!!! Mas não podia contar para ninguém e então me calei. Daquele dia até o final daquele ano, me isolei por completo naquele ônibus... Passei a me sentar ao lado de um menino que tinha um certo retraso mental e por isso sentava afastado de todos os outros também... O nome dele era Abrahão, mas todos o chamavam de “abobrão”. Sempre que podiam, os meninos batiam nele e o ofendiam. Mas claro, só percebi isso depois, quando estava ali ao seu lado vendo o seu sofrimento e o da sua mãe que todos os dias enfiava o filho naquele ônibus com uma cara angustiada, que só agora eu posso definir como tal...
Bom, o tempo passou e sei lá se foi por algum sistema mágico do meu cérebro, essa história por anos e anos foi bloqueada da minha memória, assim como o nome desse menino. Eu soube anos mais tarde que ele morreu no meio da Avenida Anchieta... Parece que caiu ou se jogou de uma passarela, que havia de envolvido com drogas, enfim...
O fato é que recentemente fazendo uma análise da minha vida, das minhas escolhas, dos meus medos e inseguranças, analisando os tipos de relacionamentos que tive e tentando entender onde foi que eu errei e o que me fez aceitar tanta coisa que eu não queria e não quero, inclusive atualmente, essa história que estava apagada veio à luz na minha memória e me fez entender um pouco mais sobre mim... A Érika é chorona, a Erika é tonta, é medrosa, é corajosa, a Erika é... é... é... Pois é, eu sou. Mas muitas vezes eu não sou, também. E nem sei como ser. E tudo bem, porque somos humanos e a vida é assim...
A questão é que faz 3 dias que eu penso em tudo isso e me dá vontade de chorar, porque eu descobri que ainda tenho muita raiva de mim! E não quero mais que seja assim. Cansei! Estou cansada demais e já faz tempo. Cansada de relacionamentos tóxicos e vazios, de brincadeiras tontas, de ter medo e de achar que não mereço ser feliz. Cheguei à conclusão que já está mais do que na hora de parar de aceitar coisas que não quero, de dizer mais nãos e de “me permitir” relações mais saudáveis e uma vida mais feliz. E não é que estou escrevendo tudo isso porque quero sua pena ou compaixão ou o que seja... Não! Longe disso! Só estou colocando “pra fora” porque eu estou cansada de guardar isso e porque muitas vezes julgamos as pessoas sem saber que cicatrizes ela carrega na alma e que dores traz no coração. Assim que... se você puder, não julgue os outros. E crie seus filhos para serem da mesma forma. Para respeitar e não julgar. Simples assim! Não tire conclusões precipitadas sobre quem “é” esta pessoa, porque você nunca a conhecerá de verdade! Nem você mesmo se conhece de verdade! É claro que agora sim, você me conhece um pouco mais e eu também me conheço um pouco mais. Mas ainda assim, isso é muito pouco sobre realmente “conhecer”.
Então... não julgue. Nem você mesmo, nem os outros.

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