sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Avarento? Será?

Que o Flávio era mão fechada todo mundo sabia.  Na verdade, com o passar dos anos a turma até acostumou...

Era ele que sempre propunha dividir o preço da pizza em pedaços para cada um pagar só o que comeu, comprar vinho Natal em vez do Cabernet Souvignon Chileno, que era o preferido em ocasiões especiais, ou ainda, fazer a esfiha em casa para economizar os 0,10 centavos de diferença.

Era ele também que nunca saia com seu carro nos finais de semana ou feriados. Não por superstição, mania ou algo assim, mas porque ele tinha certeza absoluta que os borracheiros de plantão ficavam à espreita de pneus furados só para cobrar o dobro do valor do conserto nesses dias.

Mas o que ninguém sabia, era até que ponto aquele escorpião poderia ser perigoso em seu bolso.

Começou quando a Mariana, sua única esposa e sem filhos, porque para ele não tinha nada mais caro que amante e filhos, foi para a Santa Casa de Misericórdia com aquela dor aguda na barriga.

Desde esse dia, ele nunca mais foi o mesmo!

Como era de se esperar, a doença já estava bem avançada. Ela nunca se tratara porque sabia que ele jamais admitiria gastar o dinheiro em remédios de cartela cheia. Em alguns casos, ela até convencia o farmacêutico a vender os comprimidos avulsos, mas na grande maioria das vezes, se contentava com o chá de boldo sem açúcar, que também tinha gosto de remédio.

Nessa época do hospital, já fazia uns 6 meses que ela estava internada. Recebia medicamentos do governo para suportar seus últimos dias de dor, enquanto ele esperava os horários de visita em casa, abatido e pálido. Quase não comia, não bebia e nem mesmo falava...

Mas de uma coisa ninguém pode falar: tirando os sábados, domingos e feriados, ele nunca faltou a uma só visita! Exceto naquela quarta-feira, o fatídico dia em que o estado da Mariana se agravou e ela finalmente descansou...

Na tarde anterior, o médico já tinha alertado ao Flávio. Pediu para que ele se preparasse para o pior e já procurasse um agente funerário para que ao menos a moça tivesse um enterro digno de sua resignação. E desde aquela tarde, ninguém mais viu o Flávio.

A notícia chegou por volta das 3h da tarde, na quarta-feira, na minha casa. Larguei as compras do mercado de qualquer jeito pelo chão e fui correndo atender ao telefone que não parava de tocar.

Era a enfermeira do hospital. Impaciente!
Depois de 36 tentativas de ligações sem sucesso para a casa do Flávio e 42 recados no celular, que ele sempre deixava desligado para não gastar a bateria, ela simplesmente despejou a notícia sobre mim quase como um xingamento. Sem dó, nem piedade.

Foi então que a busca começou. Juntamos toda a turma na porta da casa do Flávio para tentar descobrir onde ele poderia estar. Uns queriam ir para o bar, com a desculpa de procurá-lo. “Ele pode estar afogando as mágoas”, dizia o Fonseca e o Carlão.

Já a Cris insistiu que ele deveria estar na igreja. Afinal, depois de tanta avareza, ele no mínimo deveria estar pedindo perdão por não cuidar da mulher tão bem como prometera.

Mas, o mais infalível mesmo foi o Beto que, vendo o carro na garagem, resolveu pular o muro para saber se encontrava uma pista mais concreta. E achou!

Caído sobre a escrivaninha, em meio a orçamentos de funerárias, jazigos, coroas e caixões, lá estava ele... De olhos semi-cerrados, com o tiro certeiro de uma única bala.

O susto do primeiro impacto só não foi maior que o do segundo. Quando, em meio a toda aquela papelada, o Beto encontrou um pequeno bilhetinho em baixo da inseparável calculadora do Flávio:

“O primeiro que chegar paga a conta!” , ele dizia.

E sem mais palavras, pra economizar.

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