Espera 9 meses pra nascer. Espera a mamãe chegar do trabalho, espera o coelhinho da páscoa, espera o dia das crianças, espera a festinha de aniversário e espera também o Papai Noel.
Espera a aula começar, espera as férias chegar, espera a catapora sarar e espera o idiota do Renatinho olhar. Espera ônibus, espera a formatura, espera o resultado do vestibular, espera os 18 anos completar. Espera as prestações do primeiro carro acabar e espera também o mecânico liberar, depois de 2 horas a esperando o guincho levar.
Espera a colação de grau, espera o reconhecimento profissional, espera o homem certo pra casar, espera ele comprar cigarro até se convencer de que ele não vai mais voltar.
Então, espera para se recuperar, espera o Florentino se declarar, espera pra ver se ele não vai te enganar, espera o financiamento do BNH e espera o Juninho chegar. Nove meses depois, espera ele sentar, espera ele andar, espera ele falar e deixar de mamar. Espera o dente nascer, das fraldas sair e a chupeta cuspir.
Espera na porta da escola, espera na casa do amigo, espera o boletim pra saber se estudou e na porta da balada para ver se terminou. Então, espera uma namorada boa pra ele sossegar e espera que Deus vá ajudar.
Espera a aposentadoria validar, o filho casar, o neto nascer e o marido enterrar. Espera o inventario sair, o Juninho partir e a sua carta do exterior chegar.
Espera a novela e o novelo acabar quando aprende a tricotar. Espera a idade passar, o médico visitar e a receita para a dor nas costas aliviar. Espera a farmácia entregar, a bisneta visitar e o moço do asilo levar.
- Espera...Espera...Era Esperança o nome dela, né?
- Era. Coitada....
- Morreu velhinha, né? Tinha uns...quanto? Noventa e poucos?
- Cento e vinte e dois...Coitada.
- Nossa, bem que dizem que a Esperança é a última que morre, né?
- E nunca reclamou um A da vida. Coitada...
E nessa hora uma ligeira sensação de que o caixão havia tremido perturbou os mais próximos. Era ela! A espera da entrada no céu, morta, de novo, de raiva pelas infelizes últimas palavras proferidas por aquela sei-lá-quem no seu velório. Mas dessa vez ela não ia esperar pra falar. E gritou lá do fim da fila, da última nuvem, do fim do último corredor do céu:
- Eu posso até ser a última que morre, mas que eu vou ser a primeira dessa merda de fila a enfiar a mão na cara do filha da puta que inventou essa porra de ditado, isso eu vou!!!
- Humm, bem lembrado Dona Esperança! - era a maldita cegonha passando bem na hora por ali - Aqui no céu os últimos sempre são os primeiros. Não se preocupe mais! É hora de nascer primeiro que todo mundo em uma linda família.
E assim a Esperança se foi com seu último grito, agora um chorinho rouco de recém nascido, entalado na garganta pelo peso da revolta enquanto pensava inconformada.... Aquele bofetão ia ter que esperar.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
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