quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Hora da Verdade 2: Afasta Quarteirão

Era só uma criança de 4 anos. Acreditava na vida, na felicidade e na sinceridade das pessoas. Acreditava no amor e jamais, nunca, na mentira dos homens. Até que um dia, naquela tarde ensolarada de sábado, aparece sob sua árvore predileta aquele em quem ela sempre confiou, admirou e adorou. O irmão mais velho!

Sangue do seu sangue, e cabelo joãozinho do seu cabelo joãozinho (um trauma pra outra história…) vindo salvá-la mais uma vez da inevitável queda, tirando-a a da árvore que ela teimava em subir, mas nunca sabia descer.

Exultante que estava, não pensou duas vezes em subir na garupa da sua própria Cecizinha rosa, pilotada naquele momento por seu grande ídolo. Aquele que até então só lhe dera alegrias, além das mamadeiras de todas as tardes e horas e horas de diversão enquanto fazia-se passar por seu cavalinho de estimação em seu gigantesco pasto, o velho tapete verde da sala.

Naquele dia, entretanto, algo mudou entre eles. A confiança, essa pedra de diamante que uma vez quebrada jamais se recompõe, haveria de ser quebrada em apenas alguns minutos. E assim aconteceu. Tudo por causa de uma aposta, de uma exibição e de uma palhaçada sem-tamanho dos meninos da rua de trás, ajudados, claro, por aquele bueiro fedido, nojento e sempre destapado que esperava algum dia pela queda do velho Catulino durante mais uma das suas bebelanças no bar do Bento.

Mas o fato é que, naquele dia, justamente naquela manhã em que tudo parecia lindo, a vítima não fora o Catulino. E sim a pobre menina! A pequena e inocente criança que, induzida pelo irmão, adentrou junto com ele ao bueiro, acreditando piamente na história de que, ao fechar os olhos por alguns segundos, ambos o abririam depois de um tempo e estariam no Japão.

Um Japão que para a garota se materializou em sua primeira grande e traumática desilusão. Olhos abertos e assustados, a sensação de sentir-se enganada se tornava ainda maior somada ao terror de notar que nada, além das mesmas baratas de antes, havia por lá!

Sem Japão, sem olhos puxados e sem o próprio irmão por perto, tudo o que podia ouvir eram seus soluços em um choro amargurado, os tic-tics das milhares de baratas nos seus pés e, muito ao longe, as risadas dos garotos direcionadas todas, obviamente, para a sua dor.

Claro que, arrependido pela atitude sórdida, seu irmão mais velho mais do que depressa a retirou de lá. Tentou se desculpar, dizer que era tudo uma brincadeira, mas o trauma nascido ali cresceu dia-a-dia em seu íntimo tomando a forma de uma grande descrença nas coisas lindas e inquebráveis da vida, como a confiança plena nas pessoas. Mesmo naquelas que mais amava.

E assim ela cresceu. Sem medo de falar o que pensava, de escrever escatologias em seu blog, de ser totalmente anti-romântica ainda que estivesse diante de um daqueles deuses gregos indispensáveis. O que, aliás, para ela jamais existiu, já que conseguia ver mesmo nesses “ai, ais” a parte mais anti-romântica e desinteressante logo de cara – um truque de sua imaginação, lógico, para não se deixar levar pela ilusão do amor.

E é claro que como tudo nessa vida, a postura da menina adquirida à fórceps naquele sábado ensolarado, também teve suas conseqüências além do próprio trauma.

O fato é que, independente do lugar ou da situação, ela sempre era como era, falava o que falava e sofria as conseqüências fosse como fosse, carregando o peso eterno de ser ela, em meio a tantas mulheres “arrasa quarteirão”, a única capaz de tornar-se por sua própria conta, risco e palavras desmedidas,  a verdadeira  “AFASTA QUARTEIRÃO”...

Culpa sua? Do trauma? Do irmão? Há um dia o Sr. Freud que explicar...

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