terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Hora da verdade 1: Quando a vida privada e a vida na privada vão pela mesma descarga.

Desde pequena, principalmente nós que somos mulheres, sempre aprendemos lá no capítulo 3 das boas maneiras que soltar um “pum” em público é um dos maiores crimes contra a moral e os bons costumes do planeta!

Além de nojento e mal cheiroso, o pum fora de hora pode causar danos fatais ao encanto do casamento, das amizades, do tão sonhado reconhecimento profissional e de qualquer outro tipo de relacionamento social que se possa ter. Mas, o que fazer quando não se nasce com uma rolha na porta de saída?

Bom, segundo a minha mãe, com toda a sua polidez e educação européia, a resposta é bem simples e categórica: pum é só dentro do banheiro. E não se fala mais nisso!

Assim crescemos, resignadas, acreditando que ainda há, ao menos, uma única salvação: o banheiro! E haja o que houver, doa o orifício que doer, há sempre que se cumprir à risca tal regra. Seja o banheiro a 2 metros ou 2000 km de distância.

Claro que nem sempre isso é possível. E como toda regra tem sua exceção, depois de esgotar todas as técnicas inimagináveis de pompoarismo lado B, sempre acabamos apelando para disfarces do tipo cara feia pro colega do lado, saída pela esquerda, cara de “não sei quem fui” e tudo, obviamente, sem descer do salto. Afinal, a segunda parte da lição lá do capítulo 3 era nunca, jamais, em hipótese alguma, revelar a qualquer pessoa que você faz cocô.

- Imagina, só!  - Dizia mamãe. - Uma mulher cagando. Que coisa mais inadmissível!!! E pum é só no banheiro, hein!

E agora, em pleno mundo da propaganda, onde, enquanto na criação roteiros novíssimos saem do forno dizendo que o iogurte ajuda você a fazer cocô da forma mais  natural do mundo, fazendo do seu intestino um verdadeiro reloginho, eis que eu vejo todas as questões de uma vida inteira de fase anal mal resolvida (se não sabe o que é, estude Freud) caírem por terra. Ou melhor, descendo descarga abaixo.

E tudo por causa do banheiro da agência! Público!!! Com quatro casinhas uma de frente para a outra e portas que fazem questão de deixar seus sapatos à mostra.

Gente, cadê, peloamordedeus, o cabimento em tudo isso? Mãe, me ajuda nessa hora!!! Em que lição estava a parte que eu perdi que dizia que posso soltar pum só no banheiro, se é exatamente esse um banheiro onde todo mundo vai saber que eu peidei? E pior, que tive aquele piriri desgraçado onde me derreti toda com barulhos involuntários vindo de toda parte que se desintegrava dentro de mim? E sem ao menos a misericórdia de uma porta que não revelasse os meus pezinhos aflitos esperando o banheiro esvaziar para poder sair, de novo, como se nada tivesse acontecido. Mesmo sabendo lá no fundo que, depois de tudo, provavelmente a agência inteira já saberia....

E se por acaso ainda houver alguém lá dentro? Poderia eu simplesmente sair e dizer, com a cara mais feliz do mundo: “Puxa, não é que o iogurte é bom mesmo?” Ou a clássica: “Nossa, tá um cheiro estranho aqui, né? Será que tem vazamento no esgoto?”.

É, minha gente! Depois da tristeza de saber que fomos a vida toda doutrinadas pelos pudores de nossas mães que nunca viram um banheiro de agência, e essas, de nossas avós, que provavelmente nem cagavam de tanta vergonha, a verdade é uma só. Ou melhor, são 2.

Primeira: Uma hora ou outra todo mundo caga nessa vida. E feliz são os homens que podem fazer isso enquanto zoam um com o outro dentro do banheiro, medindo o tamanho da “obra”, a densidade do cheiro e o volume do peido, como se tudo fosse um grande troféu.

Segunda: Não importa o que a propaganda diga sobre o intestino funcionar como um reloginho ou sobre a eficácia do produto, ainda que essa mesma propaganda seja criada dentro do seu ambiente de trabalho. O melhor mesmo é nem tomar. Afinal, em agência onde o banheiro mais parece cidade do interior, que você dá um peido e todo mundo fica sabendo, encontrar uma mulher em pleno momento de aperto e piriri, soltando puns, destroços, alface e o milho de ontem é sempre uma merda. Literalmente.Principalmente se, no caso, essa mulher for você!

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